Cabeça de aluno “grevista”


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A vida dos professores que, assim como eu, não fazem concessões a alunos “grevistas” que montam piquetes para intimidar a maioria que quer ter aula está um inferno. Não conseguimos dar aula porque logo vem um pequeno bando com bumbos, apitos, cornetas e outros instrumentos para fazer algazarra e, assim, impedir que as aulas sejam dadas. 
Uso a palavra “grevista” entre aspas porque, na verdade, estudante nunca faz greve. Quem faz greve são trabalhadores que deixam de prestar um serviço como forma de pressionar seus patrões a cumprir acordos descumpridos e/ou para fazer exigências variadas. Mas alunos não prestam serviço algum. Pelo contrário, eles estão recebendo um serviço! Não assistir aula, portanto, não é greve, pois os únicos prejudicados com essa atitude são e só podem ser os alunos. Daí que nada é mais patético do que paralisações estudantis que exigem mudanças na política nacional, como se vê agora. Que instrumento de pressão é esse em que o único perdedor é quem usa o instrumento?
Mas, se paralisação estudantil já é ridículo, torna-se abominável quando se trata de uma minoria que tenta impor sua vontade aos outros com o uso de métodos intimidatórios e de sabotagem, como eu descrevi no primeiro parágrafo. Ainda assim, na semana passada, os piqueteiros usaram uma estratégia um pouco diferente comigo, talvez para fazerem de conta que são gente racional e que respeita o diálogo. Enquanto os alunos ficavam no corredor com receio de entrar na sala de aula, já que, para tanto, teriam de passar no meio dos piqueteiros barulhentos, um rapaz que nunca foi meu aluno e que talvez nem seja do nosso curso ficou conversando comigo, dentro da sala de aula e de maneira cordial, para me convencer a não dar aula. As coisas que ele disse são bastante reveladoras do modo de pensar dessa gente.
Eu disse que os piqueteiros estão desrespeitando o direito dos alunos que desejam estudar. Ele respondeu e repetiu várias vezes que, na verdade, são esses alunos que estão prejudicando o direito dos “grevistas” e que esse direito foi legitimado por uma discussão coletiva. Eu respondi que, numa democracia, a sede do direito é o indivíduo. Logo, um grupo não pode querer que os indivíduos se submetam à vontade do grupo alegando a existência de um direito coletivo que se sobrepõe ao direito individual.
Ele respondeu que eu estava propondo que os interesses individuais devem prevalecer sobre o interesse coletivo. Retruquei que eu estava dizendo coisa muito diversa, qual seja, que a opinião individual é que não pode ser sujeita à opinião de um grupo que pretende determinar como todos devem agir. De fato, se um aluno qualquer tem opinião contrária às reivindicações políticas nacionais dos piqueteiros, ou ainda, se ele até concorda com essas reivindicações, mas não acredita que “greve estudantil” seja uma estratégia de ação eficaz, então a opinião desse aluno tem de ser respeitada, assim como a decisão dele de não aderir à paralisação. E quando é a maioria dos alunos que discorda dos piqueteiros, como acontece agora, tanto mais justo que seja assim!
Mais para frente na conversa, e pouco antes de os alunos que não querem paralisação criarem coragem para entrar na sala. eu acrescentei a ele que a ideia segundo a qual existe um direito coletivo que deve se sobrepor ao individual é própria de correntes políticas autoritárias, como o fascismo. Na hora, não estava com minhas fichas de leitura, então nem pude fazer uma citação literal que comprovasse essa afirmação – até porque, com aquela barulheira dos diabos, nem dava para nos escutarmos muito bem. Mas agora vou fazer uma breve citação para evidenciar esse ponto, conforme segue:

O indivíduo só tem deveres e não direitos. […] O Estado não conhece direitos de indivíduos contra a coletividade. […] Os direitos pertencem à coletividade! (VARGAS, G. Discurso de 01 de maio de 1938, citado por ROMANO, 1981, p. 98)

A conversa com o aluno piqueteiro foi muito instrutiva. Comprovou que, quando pessoas como eu comparam os métodos de ação política de grupos de invasores de prédios públicos ou de piqueteiros – não necessariamente os dois grupos são um só – com os métodos usados por forças políticas fascistoides, tal como Getulio Vargas, não se trata aí de exagero retórico e nem de uma comparação superficial. Pois a verdade é que a estrutura mental dos grupelhos de esquerda que usam esses métodos é realmente própria do pensamento político totalitário, tanto de esquerda como de direita, na medida em que este opõe e subordina o individual ao coletivo.
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ROMANO, R.  Conservadorismo romântico: origens do totalitarismo. São Paulo: Brasiliense, 1981 (Coleção Primeiros Voos, 3)

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