VIVA! Invasão na UFPR pode virar acampamento


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Na manhã de hoje, uma assembleia de professores e funcionários do Departamento de Geografia da UFPR deliberou sobre o problema da invasão do edifício João José Bigarella. As duas votações me deixaram muito satisfeito. 
A primeira foi sobre enviar um comunicado formal à reitoria informando quantos professores são contra e quantos são a favor da desocupação (essa foi a palavra votada). Houve 17 votos a favor da desocupação e umas poucas abstenções. Portanto, ficou explícito que a maioria esmagadora dos professores e também dos funcionários deseja a desocupação do prédio e repudia o método utilizado pelos invasores – muito embora vários tenham se manifestado a favor da pauta reivindicatória do “movimento”.
A segunda votação dizia respeito a uma proposta de alteração do texto do comunicado. Ao invés de “desocupação”, foi proposto escrever um pequeno texto reivindicando o restabelecimento irrestrito do acesso ao edifício e das atividades de ensino e pesquisa que lá se realizam. Nesse caso, 13 pessoas votaram a favor da mudança do texto, 10 votaram contra e um funcionário se absteve.
Votei contra a mudança por entender que o termo “desocupação” era mais adequado. (Na verdade, o que houve ali foi uma invasão e, assim, talvez o termo ideal fosse “liberação”; mas isso não importa agora). O fato é que, apesar da modificação do texto, fiquei bastante contente com o resultado, pois os professores que se abstiveram de votar inicialmente foram unânimes em apoiar o texto que exige o restabelecimento do livre acesso de todos a um espaço público e a devolução aos professores da liberdade de cátedra. Houve um momento em que eu até temi que alguns professores simáticos à pauta dos invasores poderiam ser favoráveis a um modelo de universidade no qual um grupo outorga a si mesmo o poder de restringir o acesso a espaços públicos e de determinar os objetos de pesquisa acadêmica e também os conteúdos das aulas. Mas, para a minha alegria, descobri que esse modelo fascistoide de universidade não é apoiado por nenhum professor do Departamento.
E fiquei satisfeito ainda por outro motivo. É que, conforme foi dito várias vezes na reunião, ninguém vai se incomodar se os invasores continuarem no prédio e respeitarem nossas liberdades. E eu digo exatamente a mesma coisa. Se os invasores deixarem de tentar se impor pela intimidação e simplesmente espalharem uns colchonetes para dormir no saguão do prédio, por mim, tudo bem. Quando isso acontecer, os invasores deixarão de ser invasores e a invasão (ou ocupação) vai se transformar num acampamento de gente pacífica. Entraremos, enfim, no reino da manifestação democrática de ideias e propostas.
Inclusive, não vou nem me incomodar quando o “movimento estudantil” fizer de conta que a invasão continua e chamar o acampamento de “ocupação” nas redes. Vou me manifestar contra essa mentira, é claro, mas tendo a satisfação de saber que a “ocupação” virou um acampamento sem poder coercitivo nenhum.
O único porém é que, muito provavelmente, os invasores ficarão inflexíveis em preservar o poder sobre o espaço que usurparam. Na verdade, avalio que é isso mesmo o que vai acontecer. Esses militantes não respeitam o direito dos outros e nem a vontade da maioria. Mas, se ao menos desta vez eu estiver enganado, ficarei satisfeito.
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