"Aquarius": no cinema ou no planejamento, esquerdistas são sempre maus perdedores


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O título do capítulo 2 do meu livro Por uma crítica da geografia crítica, publicado em 2013, é o seguinte: “a impotência das teorias críticas no domínio prático e a lógica dos maus perdedores”. A segunda metade desse capítulo, em que são analisadas propostas de planejamento urbano e regional, faz uma revisão bibliográfica que pode ser resumida assim:
[os] autores dessa tradição de pensamento [crítico] têm tanta convicção de que a sociedade é estruturada por contradições insolúveis fora da realização de alguma utopia social anticapitalista que são incapazes de pensar em qualquer explicação para os fracassos das suas teses que não esteja no processo político e na imprensa (p. 99).
[Rainer] Randolph concorda com Ana F. A. Carlos e Arlete M. Rodrigues, entre outros, quanto ao pressuposto de que existe uma vida urbana cuja plenitude é negada pelo capitalismo, sobretudo em sua versão globalizada e “neoliberal”; concorda com aqueles que constatam a incapacidade dos instrumentos de planejamento participativo para fazer surgir e levar adiante propostas de superação do capitalismo; credita essa incapacidade às assimetrias de poder entre as classes e, como consequência, à “mídia”, ao processo político de formação de consensos e à democracia representativa, que transformariam os sistemas participativos em mera ilusão; por fim, sustenta que, se o Estado for efetivamente sujeito a uma vontade popular manifesta por meio de mecanismos democráticos alternativos – a tal inversão das relações entre planejadores e população -, ver-se-á o surgimento de demandas às quais o planejamento só poderá atender se assumir um papel “subversivo” frente à lógica capitalista, demandas essas pertencentes à esfera subjetiva das vivências e das práticas espaciais concretas de certos grupos sociais (p. 104).
[…] Portanto, a crise da teoria social crítica, derivada da ausência de um projeto razoavelmente preciso e viável de sociedade alternativa ao capitalismo, empurra urbanistas e geógrafos para a formulação de propostas radicais que se sustentam em velhas teorias marxistas da luta de classes e em suposições apriorísticas e ideológicas sobre a subjetividade das pessoas, não no estudo direto dos problemas urbanos. É a atitude típica dos maus perdedores: quando vencem, é prova de que estão certos; quando perdem, é culpa das regras do jogo (p. 105).
Muito bem. Vejamos agora este comentário do jornalista Reinaldo Azevedo (aqui):
Kleber Mendonça Filho, o diretor de “Aquarius”, revelou que é mesmo um esquerdista típico. Ele só reconhece o resultado de um jogo quando vence. Concedeu uma entrevista ao site DW Brasil e criticou a escolha do longa “Pequeno Segredo” para representar o país no Oscar. Para ele, o “processo de escolha foi corrompido desde o início”, e o Ministério da Cultura fez uma seleção com base em “elementos políticos e não técnicos”.
Ainda segundo Kleber, deixar “Aquarius” de fora da cerimônia foi uma “retaliação ao filme” feita pelo governo Temer em resposta à manifestação em Cannes, quando atores e a equipe técnica do longa levaram cartazes no tapete vermelho falando que o Brasil havia sido vítima de um golpe. O diretor não citou nominalmente Michel Temer na entrevista, mas falou sobre o ministro da Cultura, Marcelo Calero, que, segundo ele, “mostrou uma falta de treinamento muito grande com a ideia da democracia ao criticar abertamente o protesto feito em Cannes”.
Bem, dizer o quê? Corrompido e corrupto é o caráter de quem:
– pega dinheiro público para fazer um filme;
– viaja ao exterior às expensas dos brasileiros;
– uma vez em solo estrangeiro, mente sobre o processo político no país e difama milhões de brasileiros;
– mantém um cargo público mesmo considerando o governo golpista;
– pega financiamento público para fazer filme quando, sendo funcionário público, estaria impedido de fazê-lo;
– resolve apelar ao proselitismo para dar visibilidade à sua obra, que, então, se impõe mais em razão da polêmica política do que das qualidades estéticas.
Corrompido.
Corrupto.

Como se vê, a lógica dos maus perdedores não pauta apenas as “reflexões” de intelectuais que se dizem “críticos” quando constatam o fracasso das suas teses no âmbito do planejamento e quando disputam verbas públicas para pesquisa científica, mas também as opiniões expressas por esquerdistas que se dedicam a outras áreas de atividade, como o cinema. Com muito raras exceções, o marxismo e demais vertentes teóricas e políticas anticapitalistas são a negação do pensamento científico e da democracia, além de inúteis para a formulação de políticas de Estado e anti-republicanas quanto à gestão dos recursos públicos.

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