Agricultor familiar prefere plantar fumo a fornecer verdura para a merenda escolar


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Uma das muitas aberrações do Brasil atual é o discurso de que a agricultura “camponesa” não age movida pelo interesse em obter lucros, mas sim pelo objetivo de reproduzir seu modo de vida, o qual se adaptaria ao capitalismo de forma “contraditória”. Em função disso, haveria uma “lógica da produção camponesa” que, contrariamente à “lógica do agronegócio”, estaria orientada para a produção de alimentos saudáveis de forma ambientalmente sustentável e destinados ao consumo no mercado interno.
Mas como os “pesquisadores” que estudam o agro com esses parâmetros explicam o fato de que a maior parte da produção de tabaco é realizada pela agricultura familiar? Bem, ou eles simplesmente omitem esse fato – tal e qual acontece nas tabelas do suplemento especial do Censo Agropecuário 2006 sobre agricultura familiar -, ou então sugerem que o produtor familiar muitas vezes planta fumo por falta de opção. Noutros termos, justificam suas explicações apriorísticas com uma racionalização ad hoc segundo a qual muitos “camponeses” se vêm forçados a assimilar a “lógica capitalista”, ao menos parcialmente, como estratégia para resistir no meio rural.
Bem, já tive o prazer de orientar uma dissertação de mestrado sobre a cultura do fumo em Prudentópolis (PR), defendida recentemente, que desmonta essa visão falseadora e estereotipada. A pesquisadora, Andréia Vilczak, entrevistou produtores familiares desse município que são fornecedores da Souza Cruz e constatou que todas as suas decisões sobre o quê e como produzir são pautadas por uma racionalidade econômica baseada em avaliações de custos de oportunidade, rentabilidade, riscos de investimento e relação custo/benefício.

Mas não vou fazer um resumo do trabalho todo, o qual deverá ser publicado brevemente em revista científica. Vou apenas destacar uma passagem de entrevista, citada na dissertação, que revela os motivos que levam uma produtora familiar de Prudentópolis a preferir vender fumo para a Souza Cruz em vez de verduras para as crianças:

Eu “plantava as coisas” para a merenda escolar aqui da escola. […] nós tinha que comprar as sementes e tudo o que precisava pra produzir essas verduras […] quando levava na escola ficavam colocando defeito na minha produção […] queriam que eu levasse todo dia dez pés de alface na escola […] que lucro eu ia ter ir todo dia na escola levar só dez pés de alface? E ainda recebia só depois de 40 dias que entreguei a produção, e ainda às vezes atrasava. […] O fumo é muito cansativo, só que a gente não precisa ficar se humilhando pra comprar a produção da gente, a firma leva tudo, seja o melhor fumo, seja o pior.

Ou seja, produzir tabaco para indústrias de cigarro é um investimento seguro, pois a empresa se compromete em contrato a comprar toda a produção, e ainda oferece ganhos maiores. Em que planeta vivem esses “pesquisadores” da “agricultura camponesa”?
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