Professores acham que propaganda do PT é conteúdo escolar


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Mais uma vez, uma professora de geografia manda e-mail para o Escola Sem Partido – ESP, e o coordenador do site, Miguel Nagib, me encaminhou cópia para que eu analisasse. Ela diz o seguinte:
Sou professora de geografia e uma aluna fez um trabalho de pesquisa sobre o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos. Esses são os dados. Após uma leitura cheguei a conclusão que os alunos não são tão “tapados” como vocês pensam e poderiam deixar de lado essa frescura de escola sem partido, e trabalharem em coisas mais produtivas para o Brasil. Como professora de geografia sou muito técnica não caio em historinhas mal contadas, porque entendo que quando se conta uma história se leva em conta as nossas percepções etc, os números falam mais alto e não pude deixar de comentar, dentro do conteúdo de geografia o período da ditadura, o governo Sarney, Itamar, FHC e o governo Lula. E agora o que fazer? Não posso ser chamada de partidária por levar aos alunos a realidade, e dentro desse trabalho eles fizeram uma pesquisa com os pais e avós e foi surpreendente o resultado dessa pesquisa, o governo Lula foi disparado o melhor.
Quando vi os dados reproduzidos pela professora na sequência do seu e-mail, não pude deixar de rir. É que, em 05.10.06, um aluno do curso de pós-graduação em geografia da UFPR, e que também trabalhava como professor de geografia do ensino médio, mandou para a lista de e-mails do curso uma mensagem com o título “FATOS, NÚMEROS E FONTES”. O texto apresentava uma série de dados estatísticos que visavam provar que, em 4 anos, Lula havia realizado mais do que FHC em 8 anos. Assim, o motivo da minha risada foi constatar que, no “trabalho de pesquisa” feito pela aluna da professora, os dados foram selecionados e organizados da mesma forma que naquela propaganda viral petista de quase dez anos atrás!
Por que digo isso? Primeiro, porque os dois e-mails traziam as informações organizadas em dezenas de itens temáticos semelhantes, como, por exemplo, “empregos gerados”, “salário mínimo” e “salário mínimo convertido em dólares”. Segundo, porque os dois e-mails asseguravam que todos os dados vinham de fontes confiáveis, mas não informavam qual dado veio de qual fonte. Nos dados recentes que a professora cita, são indicadas as fontes de apenas 9 dos 50 itens em que as informações estão organizadas! Na propaganda de 2006, nem isso. Por último, porque, nos dois casos, os indicadores selecionados e os anos de referência, assim como a opção de usar porcentagens, médias ou valores absolutos, revelam que as informações foram organizadas com o objetivo de criar a impressão de que os governos petistas teriam sido os melhores da história. Exatamente como se espera de qualquer peça de propaganda!
Efeito “petrolão”
Mas uma diferença entre o e-mail de 2006 e os números citados pela professora é que, antes, o PT não tinha a preocupação de tratar da lucratividade das estatais. Em tempos de Lava Jato, porém, as necessidades do partido são outras: logo de cara, os dados citados pela professora comparam os lucros do BNDES, CEF e Banco do Brasil para os anos de 2002 e 2013, medidos em bilhões de alguma coisa (a moeda não é informada). Já quando o assunto é a Petrobrás, são citados o valor de mercado da empresa para os anos de 2002 e 2014 e o lucro médio anual desta nos governos de FHC e do PT, medidos igualmente em bilhões de alguma coisa.
Mas por que são informados os lucros em valores absolutos? Esse indicador pode ter alguma utilidade para medir o tamanho de uma empresa, mas não serve para avaliar a eficiência da sua gestão. Para tanto, o adequado é avaliar a rentabilidade, isto é, o retorno sobre o capital investido, medido em porcentagem.
Mas, mesmo que o lucro em valores absolutos servisse para avaliar a eficiência da gestão, caberia indagar: qual é a fonte das informações sobre o lucro das estatais? Isso não foi mencionado. Os valores foram deflacionados? Também não está dito. Ainda assim, a professora “muito técnica” jura que as fontes são confiáveis. E o fato de os grandes prejuízos exibidos pela Petrobrás nos últimos 2 anos terem sido camuflados pelo lucro médio anual dentro de um período de uns 13 anos não a incomoda nem um pouco.
“Nunca antes na história deste país”

No trabalho que a aluna fez, segundo a professora, está informado o seguinte:

41. Índice de Desenvolvimento Humano:

2000 – 0,669
2005 – 0,699
2012 – 0,730

A série histórica do IDH é anual e começa em 1975. Por que só esses 3 anos foram citados? Resposta: porque o IDH se elevou mais depressa nos anos anteriores à chegada do PT ao poder! Vejamos:

Índice de Desenvolvimento Humano – Brasil
1980-2011
1980 1990 1995 2000 2002 2003 2010 2011
0,549 0,600 0,6325 0,665 0,6758 0,6812 0,713 0,718
Fonte: Gapminder World. Disponível em: <www.bit.ly/26uWHTI> Acesso em: 30 abr. 2016
OBS: O índice para 1990, tal como aparece na fonte, é 0,6.

Se observarmos por década, veremos que a maior elevação se deu nos anos 1990, com ganho de 0,065. Em seguida, vem a década de 1980: crescimento de 0,051. Por último, os anos 2000, com elevação de 0,048. 

Já se for para comparar governos recentes (e não é essa a função da escola), vemos que nos anos FHC (1995-2002) o IDH cresceu 0,0498. Nos governos de Lula (2003-2010), o aumento foi de 0,0363.
Há várias observações a fazer sobre esses números, mas não vou estender demais a discussão. Basta destacar que os anos citados no trabalho feito pela aluna foram escolhidos de modo a esconder as melhoras ocorridas no governo FHC e ainda fazer o PT aparecer bem na foto. A aluna não aprendeu nada sobre a utilidade do IDH como indicador social e ainda pode ter ficado com a ideia falsa de que os governos do PT foram melhores à luz desse indicador!

Partidarização do ensino
Há outros problemas de manipulação estatística e de uso das fontes nas informações citadas pela professora, mas isso fica para depois. Com base no que escrevi acima, já está claro que as informações utilizadas pela aluna foram elaboradas com objetivos de propaganda política, tanto quanto no caso daquele e-mail de dez anos atrás. A aluna retirou as informações de algum site do governo, do partido e/ou de alguma organização filopetista, e a professora avaliou que estavam corretas sem questionamentos. Que outra explicação pode haver para esse equívoco que não a simpatia ideológica da professora pelo PT?
Para evitar ou reduzir ao máximo o risco de partidarização, é recomendável manter o foco nas transformações demográficas, econômicas, sociais e geográficas de caráter estrutural e abordar essas transformações com o uso de indicadores com séries históricas longas, abrangendo muitas décadas. Mas os professores só vão tomar esse tipo de precaução quando esquecerem as bobagens ditas por autores como Paulo Freire e José W. Vesentini.
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