Impeachment – Brasilianista fala besteiras e esbanja preconceito ao tratar da crise atual


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O historiador britânico e brasilianista Kenneth Maxwell deu uma entrevista na qual expõe um modo de pensar que, embora superior ao da maioria dos intelectuais de esquerda tupiniquins, reforça várias informações erradas e preconceitos que servem de munição para os defensores do lulopetismo (aqui).
A superioridade do seu ponto de vista está no fato de ele não minimizar a gravidade da situação, pois afirma: “o Brasil vive sua pior crise econômica em meio século”.  E ele também reconhece que “a imagem internacional do Brasil não poderia estar pior”, por conta da combinação de escândalos, desempenho econômico péssimo, surto de zika, crise na saúde pública e atraso nas obras para as olimpíadas. Além disso, é bastante lúcido ao dizer que:
[…] é o modelo de intervenção excessiva do Estado e a relação promíscua entre o governo e as grandes construtoras, e entre estas e as corporações estatais – e, possivelmente também os bancos estatais – que ofereceu um pote de mel para os políticos, todos prontos para obter vantagens pessoais e políticas.
Contudo, não há como não jogar uns tomates nas mistificações que ele reverberou, como, por exemplo:
O PT não inventou a corrupção no Brasil, mas obviamente foi corrompido pelo exercício do poder.
Sim, o PT não inventou a corrupção, mas é muito estranha a ideia de que o partido se corrompeu só depois de chegar ao poder. Afinal, como um político pode começar a roubar antes de ter acesso a verbas, cargos e poder para influir no processo legislativo e/ou na administração pública? Então, como presumir que um político ou um partido era honesto antes de chegar ao poder e só depois mudou? Não vale dizer que o PT se viu metido com denúncias só após 2002, pois o escândalo CPEM, que chegou a resvalar em Lula, ocorreu nos anos 90. Será que o historiador esqueceu isso?
Além do mais, sua fala sugere que o PT se corrompeu para garantir a governabilidade, pois só isso explica as palavras “pelo exercício do poder”. Mas essa é uma sugestão completamente falseadora, pois já está mais do que provado que petistas como Zé Dirceu, Henrique Pizzolato, Silvio Pereira, entre outros, roubaram para enriquecer a si mesmos e aos seus parentes, podendo ter acontecido o mesmo também com Lula!
Não bastasse isso, Maxwell afirma:
O antagonismo em relação ao PT é intenso há anos entre os brasileiros ricos, especialmente no sul e centro do país. Existem antagonismos profundos – regional, racial e de classe – envolvidos. E o risco de piorarem com a crise econômica e a paralisia política persiste.
Mentira e preconceito descarado! Conforme eu já demonstrei com base nos dados da Pesquisa Social Brasileira – PESB, não existe nenhuma clivagem regional ou de classe que explique as disputas eleitorais no Brasil de hoje. E essa mesma pesquisa, embora indicando que há preconceito racial no país, esclarece que não existe nenhuma diferença entre ricos e pobres no que diz respeito à tendência de julgar os outros pela aparência (Almeida, 2007).
O PT é rejeitado pela população de mais alta escolaridade, isso sim, a qual tende a ser menos elitista, mais exigente quanto à ética na política, menos favorável ao intervencionismo estatal, ter mais espírito público e a ser contra a censura à imprensa. Exatamente o inverso da tendência da população de baixa escolaridade, a qual votou em peso no PT nas quatro últimas eleições (idem).
Então, como as pessoas com ensino superior têm renda mais alta e estão mais presentes nas capitais do Centro-Sul do que nas pequenas cidades do Norte e Nordeste (idem), certos intelectuais inventam que se trata de uma oposição entre uma elite rica e preconceituosa contra nordestinos pobres e negros, desqualificando assim as preferências políticas do setor moderno do eleitorado, aquele que, por conta da maior escolaridade, cultiva valores democráticos, exige mais ética na política e tende a não ter preconceito de classe!
Impeachment
E a fala de Maxwell se revela particularmente insidiosa quando lembramos que foi principalmente a população de mais alta escolaridade – a qual, na sua grande maioria, não é rica – que encheu as ruas nas primeiras manifestações pelo impeachment. Tanto que ele teve o desplante de dizer isto:

É a crise mais grave que o Brasil enfrenta desde o suicídio de Getúlio Vargas, no meio da década de 1950, e que levou ao impasse que gerou duas décadas de regime militar. Ninguém está prevendo uma volta desta história triste, mas, sem dúvida, há muito em jogo no país em termos políticos e econômicos.

Ora, há indicadores econômicos que permitem comparar o momento atual com meados dos anos 50, como é o caso da participação percentual da indústria no PIB. Mas, politicamente falando, não há nada parecido entre os dois períodos! Afinal, Vargas se matou quando viu que ia ser apeado do poder por um golpe, ao passo que o movimento pró-impeachment é absolutamente democrático e constitucional. E o brilhante brasilianista parece ver também uma luta política radical entre forças favoráveis e contrárias às políticas de distribuição de renda no Brasil de hoje, ignorando o fato de que, conforme pesquisas oficiais que o PT se negou a divulgar, a concentração de renda aumentou ao longo dos governos de Lula e Dilma!

Assim como a turma do PT, Maxwell fala como se esse partido fosse um representante de pobres, negros e nordestinos em luta com uma elite preconceituosa e socialmente insensível, quando a verdade é que o PT alimenta uma visão preconceituosa contra a “elite” para disfarçar o fato de que traiu seus eleitores com o discurso da justiça social, pois deu continuidade às políticas de transferência de renda de FHC ao mesmo tempo em que petistas selecionaram um grupo de empresários “amigos” para dividir com eles o butim do Estado!  

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ALMEIDA, A. C. A cabeça do brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2007.