Linchadores não são vítimas


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A Veja publicou esses dias uma matéria de André Petry sobre o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, que foi confundida com um retrato falado, divulgado nas redes sociais, de uma suposta sequestradora de menores que faria rituais de “magia negra”… Depois de esmiuçar a propagação dessa boataria irresponsável nas redes, além de descrever as torturas a que a vítima foi submetida antes de morrer, chega a hora do artigo ensaiar uma explicação para o grave problema dos linchamentos:

“O sociólogo José de Souza Martins, autor de Linchamentos — A Justiça Popular no Brasil, calcula que, nos últimos sessenta anos, entre 1 milhão e 1,5 milhão de brasileiros participaram de um linchamento ou tentativa de linchamento. É um sintoma de desagregação social, mas não é só coisa de desordeiros. Também envolve gente que está numa busca desesperada por ordem e segurança, gente que está exausta com a incompetência do poder e das instituições para garantir a paz social. Essas pessoas lincham para punir o criminoso, para vingar-se. As pesquisas mostram que, em geral, os linchamentos duram de cinco a vinte minutos, contam com mais de 200 pessoas, ocorrem em lugares abertos, nas grandes cidades, e as vítimas são homens. No bairro em que já houve um linchamento, é mais provável que haja outro, como se a consciência social daquela comunidade estivesse rompida” (ver aqui).

Martins é um sociólogo marxista muito acima da média dos intelectuais dessa categoria, mas nem por isso deixa de reproduzir certos vícios do pensamento de esquerda que levam a conclusões completamente falsas para os fenômenos sociais (Diniz Filho, 2013, p. 53-55). No caso, Petry cita a obra de Martins para afirmar que linchamentos são praticados por “desordeiros” e também por gente “desesperada por ordem e segurança”. É uma forma tipicamente esquerdista de vitimizar criminosos, mesmo considerando a menção superficial aos tais “desordeiros”. Como eu já discuti em Não culpe o capitalismo, autores de esquerda costumam relativizar as relações de causa e efeito que usam para “explicar” a criminalidade no intuito de disfarçar retoricamente o fato de que esse tipo de explicação conduz logicamente à conclusão preconceituosa de que pobres tendem a ser bandidos. 
Ora, a ideia de que pessoas que já foram vitimadas pela violência tendem a ser favoráveis ao uso de métodos ilegais de punição de criminosos, tais como execuções e linchamentos, faz todo sentido em termos lógicos. Mas, assim como a previsão de Einstein sobre a existência das ondas gravitacionais teve de esperar cem anos para ser provada por meio de observação empírica direta, nenhum cientista deveria se contentar com uma explicação baseada apenas em lógica. Explicações assim, na ausência de evidências empíricas, devem ser vistas apenas como hipóteses ainda não demonstradas.
Contudo, essa ideia não só já foi testada empiricamente como o resultado da pesquisa indica que ela é falsa! De fato, a Pesquisa Social Brasileira – PESB, mediante a aplicação de um questionário junto a uma amostra representativa da população brasileira, constatou que as pessoas que já foram assaltadas não manifestaram tendência a aprovar o uso de métodos punitivos ilegais. Os dois fatores que influenciam essa tendência são, na verdade, o grau de religiosidade e, principalmente, a escolaridade.
Aos números
A pesquisa mostrou que 27% dos analfabetos e 33% das pessoas que estudaram da 5ª a 8ª consideram que é certo linchar suspeitos de crimes violentos, exatamente como aconteceu com a infeliz Fabiane! De outro lado, só 17% das pessoas com ensino superior ou pós-graduação afirmaram concordar com essa prática. Então, por que há tantos linchamentos no Brasil? Porque a maioria da população tem escolaridade muito baixa. Em 2003, quando a PESB foi realizada, só 12% dos entrevistados tinha ensino superior completo, ao passo que 9% eram analfabetos, 25% estudaram só até a 4ª série e outros 23% da 5ª a 8ª.
Já o grau de religiosidade foi medido pela frequência da prática de orações e de comparecimento a cultos, sendo que, quanto maior a frequência declarada pelo entrevistado, mais pontos ele marcava numa escala de religiosidade. As respostas dadas às questões sobre criminalidade revelaram o seguinte:
  • Pessoas de pouca escolaridade e mais religiosas tendem a ser refratárias a punições ilegais porque seguem a moral cristã, que condena a vingança.
  • Já as pessoas com superior completo, para qualquer nível de religiosidade, são menos tolerantes com punições ilegais porque estas contrariam a ética cívica.

Portanto, o problema não tem nada a ver com “desagregação social” e com insegurança. Sendo assim, as medidas mais importantes a tomar contra os linchamentos são: punir os linchadores com o rigor da lei, que é uma medida dissuasória de curto prazo, e melhorar a qualidade do ensino básico, a fim de acelerar a expansão do contingente de pessoas com curso superior.

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DINIZ FILHO, L. L. Por uma crítica da geografia crítica. Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2013.