Como continuar errando análises políticas

Durante a campanha presidencial, a imprensa brasileira demonstrou, mais uma vez (se bem que com um diferencial singular, agudo, posto que tentava provar a necessidade que temos dela através de uma complacência arrogante para com o público) sua incrível capacidade de não saber absolutamente nada sobre política. E por nada eu quero dizer nada, mesmo. Não sabe sobre a “velha” política, não sabe sobre a “nova” política, não sabe porque o povo brasileiro votava na “velha” política e nem porque agora este mesmo povo, num ato, para os olhos dessa imprensa, surpreendente, resolveu votar na “nova” política.

Creio que muitas análises sobre a chegada do Presidente Bolsonaro ao poder já foram escritas, tanto em publicações opostas a estes Estudos Nacionais como em sites de linha editorial similar à nossa. Este texto não é sobre isso. O que quero chamar atenção é sobre o que podemos nomear de “epistemologia” do governo que começou em 1.º de janeiro. Essa epistemologia estava “dada” já na campanha, muito exposta mesmo nas entrevistas que Bolsonaro deu ao Jornal Nacional quanto à GloboNews. A dinâmica era a seguinte: quanto mais se perguntava o que ele iria fazer em saúde, educação e — especialmente — economia, menos o novo presidente dizia qual era o seu plano; antes, reiterava seu compromisso de convocar um corpo técnico capaz de sanar esse problema. Naquela época, essas “evasivas” faziam muita gente perguntar: E as propostas? Hoje, muitos meses e uma facada após esse round de entrevistas, não há mais dúvidas que as coisas devem ser assim. Mas cabe perguntar: Por que os experts em política insistiam, ao menos no início, em direcionar a Bolsonaro perguntas sobre absolutamente tudo no mundo? Certamente não é função do presidente ser um líder absolutista. Num regime moderno, isso é função dum ditador, que usa dispositivos populares e democráticos para arrogar a si mesmo funções absolutas.

Há várias razões para isso, para a condução errada das entrevistas e das análises da imprensa sobre o presidente. Não preciso arrolar todas aqui (e, ademais, nem tenho como fazer uma lista exaustiva). Certamente há algumas preferidinhas minhas que eu entretenho: p.ex., o trauma profundo — mas ainda não identificado — do fim do Império, que depôs um chefe de estado que realmente sabia de tudo e podia quase tudo; veja-se que um dia depois do fim do Império, o novo regime republicano virou uma ditadura; outra pode ser uma falta de sofisticação intelectual brasileira para conduzir um sistema de governo complexo como a democracia republicana. Contudo, a que quero falar aqui é a do atraso de visão horroroso, uma visão ainda saturada de preconceitos historicistas, sociológicos e materialistas, que impedem as nossas melhores mentes de enxergar as coisas para além do jogo político, do jogo de poder, quero dizer, mais imediato, mais óbvio, mais superficial.

Vou contar uma história que ilustra o que quero dizer. Uma vez conversava com um professor universitário de esquerda, desses tipos modernos “espiritualizados”, que freqüentam o Seicho-no-ie ou fazem yoga. Isso foi durante a eleição. Esse professor me falava que ele, por ser um espírito evoluído e que aceita as coisas como são, não tinha, em contraste com muitos dos seus colegas, “raiva” do Bolsonaro. “Ele só está surfando a onda”, dizia. Raiva mesmo o insigne professor tinha do Aécio Neves e do PSDB.

— Por quê? perguntei.

— Porque em 2014 eles abriram esse ódio ao PT e abriram espaço para essa direita mais extrema.

Suspirei. Eu e você, leitor, sabemos que não foi assim. Sabemos que foi uma pletora de outras coisas: de influências intelectuais, filosóficas e até mesmo espirituais que levaram a essa mudança à direita pela qual o Brasil passou nos últimos anos. Tentei explicá-las ao professor: “O senhor não acha que mais do que partidos e políticos, não podem ter sido novas manifestações culturais que estimularam esse novo momento político?” Houve uma pausa e ele perguntou:

— Culturais? Que bandas foram essas que surgiram, então?

Suspirei mais profundamente. O estrago intelectual das classes pensantes é tão forte que por cultura o professor entendeu bandas, músicas e se eu instigasse mais um pouquinho ele ia perguntar se tem algum grupo de capoeira de direita. É que tudo que passa da ordem mais superficial e mais material simplesmente, na cabeça deles, não existe. Se para a maioria dos progressistas a instituição do casamento é uma que não se baseia no amor, mas no duelo de poder entre os sexos, como que a realidade política poderia ser interpretada diversamente? Como eles poderiam, portanto, pensar que a ascensão do conservadorismo e da direita poderia ser algo que surgiu de maneira diferente da que eles pensam — que os velhos decrépitos do PSDB e banqueiros “neoliberais” arquitetaram diabolicamente esse momento político controlando assim a mentalidade do povo com o auxílio da Rede Globo?

Para se entender corretamente o novo momento político é preciso olhar mais longe: “Amplius! amplius!” E, para mim, não há exemplo melhor sobre esse olhar do que o novo Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O polêmico artigo de Araújo “Trump e o Ocidente” (Cadernos de Política Exterior 3, 2017, pp. 323–357) fez sensação nos mais variados meios. Para quem nunca ouviu, ou só ouviu superficialmente, os nomes dos citados, — Guénon, Evola, Spengler — Araújo fez às vezes dum maluco hiper-religioso, dum teórico da conspiração trompista, alarmando contra o “globalismo” enquanto usa como referencial teórico dois esoteristas e um decadentista enquanto tenta trazer para o Itamaraty um projeto de poder arcaico que vai pôr a nação de quatro diante dos EUA. Já para quem finge que conhece René Guénon e Julius Evola, fez como o ressentido Sr. Martim Vasques da Cunha e afirma taxativamente que Araújo é um perenialista que quer trazer o combate ao Kali Yuga para o novo governo. Exemplo:

Suspiro até meus alvéolos murcharem.

Não é necessário dizer que as duas vertentes de análise estão incorretas ou são ineficientes. Uma simplesmente ignora a literatura extra-oficial citada pelo Ministro Araújo; a outra se regozija em dizer que conhece o nome de René Guénon antes de se apavorar dizendo que ele é um alicerce da mentalidade jihadista (como se aquele que Cunha acha que é seu nêmeses, Olavo de Carvalho, já não o tivesse dito antes). O que os dois não sabem é que as leituras podem dizer palavras diferentes, mas partem da mesma premissa: que Araújo tem “um projeto de poder” (poder no sentido esquerdista da palavra, de imposição opressora dum ideário). Nenhuma das duas vertentes nem cogita em fazer uma leitura diferente. Nem mesmo Martim Vasques pensa, por exemplo, que a visão de Ernesto Araújo é uma visão mística, isto é, dum filósofo místico, que é a classificação que o próprio Eric Voegelin dá a si mesmo. Se Guénon e Evola entram no ensaio por partilharem essa visão místico-religiosa do campo histórico, apontando certos defeitos da realidade contemporânea — apontamentos esses que, aliás, se harmonizam com os de Spengler.

É essa visão transcendente da realidade político-histórica que interessa a Araújo e é a que embala a nova política. E, devo dizer, de nova não tem nada. Ao optar por Bolsonaro, o brasileiro fez a opção de retornar a um aspecto tradicional de visão de mundo. Essa visão tradicional normalmente se faz em linguagem através de símbolos como “valores” e “família”, e apenas em último grau vira um “projeto” político. E mesmo essa política não é entendida no sentido moderno do termo, mas num conjunto de ações individuais pautadas por esses símbolos.

Para que se entenda o novo momento político é necessário que se aprenda a ver. É necessário que se harmonize a visão com aquela visão uma, que Christopher Dawson diz ser a fonte de toda cultura, proveniente do povo e que se articula e se torna intelectualmente diferenciada nas grandes obras e nos grandes atos. Enquanto não se fizer isso, o jornalismo e a intelectualidade brasileira continuarão, do alto da sua arrogância materialista, sendo motivo de chacota.