A Declaração de Paris – Uma Europa em que podemos acreditar


Este ARTIGO foi publicado originalmente neste SITE

Por Phillipe Bénéton, Rémi Brague, Chantal Delsol, Roman Joch, Lánczi András, Ryszard Legutko, Roger Scruton, Robert Spaemann, Bart Jan Spruyt & Matthias Storme [*]

A falsa Europa é frágil e impotente

A Europa pertence a nós e nós pertencemos a Europa. Estas terras são nossa casa; nós não temos outra. As razões pelas quais estimamos a Europa excedem nossa habilidade de explicar ou justificar nossa lealdade. É uma questão de histórias compartilhadas, esperanças e sentimentos. É uma questão de costumes, momentos de compaixão e dores. É uma questão de experiências inspiradoras de reconciliação e a promessa de um futuro conjunto. Paisagens comuns e eventos estão carregados de significado especial – para nós, não para outros. A pátria é um lugar onde as coisas são familiares e onde nós nos reconhecemos, por mais que estejamos a divagar. Esta é a Europa real, nossa preciosa e insubstituível civilização.

A Europa é o nosso lar

A Europa em toda a sua riqueza e grandiosidade é ameaçada por uma falsa compreensão de si mesma. Esta falsa Europa imagina a si mesma como realizadora da nossa civilização, mas na verdade, isto arruinará nosso lar. Isto atrai para exageros e distorções das autênticas virtudes da Europa, enquanto se mantém cega para seus próprios vícios. Seus proponentes são órfãos por escolha e eles presumem que ser um órfão – ser um mendigo – é um objetivo nobre. Deste modo, esta falsa Europa se considera como precursora de uma comunidade universal, que não é universal nem se quer uma comunidade.

A falsa Europa nos ameaça

Os patronos da falsa Europa estão enfeitiçados por superstições do progresso inevitável. Eles acreditam que a história está do seu lado e esta fé faz deles soberbos e desdenhosos, inaptos para conhecer os defeitos no mundo pós-nacional e pós-cultural que estão construindo. Além disso, são ignorantes das verdadeiras fontes de decência humana que eles mesmo prezam – assim como nós. Eles ignoram e até mesmo repudiam as raízes cristãs da Europa. Ao mesmo tempo em que se importam muito em não ofender os muçulmanos, os quais eles imaginam que alegremente adotarão sua visão secular e multicultural. Imersos no preconceito, superstição, ignorância e cegos por vaidade, se felicitando com visões de um futuro utópico, a falsa Europa reflexivamente odeia dissidentes.

A falsa Europa é utópica e tirânica

Estamos chegando a um beco sem saída. A maior ameaça para o futuro da Europa não é uma aventura militar russa nem a imigração muçulmana. A verdadeira Europa está em risco por causa do aperto sufocante que a falsa Europa tem sobre nossas imaginações. Nossas nações e culturas comuns estão sendo esvaziadas por ilusões e auto decepções sobre o que a Europa é e deveria ser. Nós prometemos resistir a esta ameaça ao nosso futuro. Nós defenderemos, sustentaremos e patrocinaremos a verdadeira Europa, a Europa para a qual todos nós pertencemos verdadeiramente.

Nós devemos defender a Europa verdadeira

A verdadeira Europa supõe e encoraja a participação ativa no projeto comum de vida cultural e política. O ideal europeu é de generosidade, baseado na aprovação de um conjunto de leis que se aplica para todos, mas é limitado em suas exigências. Este consenso nem sempre tomou a forma da democracia representativa. Mas nossas tradições de lealdade cívica se fazem fundamentais para nossas tradições políticas e culturais, independentes de suas formas. No passado, europeus lutaram para fazer nossos sistemas políticos mais abertos para a participação popular, e nós nos orgulhamos desta história. Mesmo que em algumas ocasiões o fizessem em rebelião aberta, eles calorosamente afirmaram que, independente das falhas e injustiças, as tradições dos povos deste continente são nossas. Esta dedicação para reformas fez da Europa um lugar que busca uma justiça cada vez melhor. Este espírito de progresso nasce do nosso amor e lealdade por nossas pátrias.

Generosidade e lealdade cívica encoraja a participação ativa

O espírito europeu de unidade nos permite confiar em outros em praças públicas, mesmo quando somos estrangeiros. Os parques públicos, praças centrais e amplas avenidas das vilas e cidades europeias expressam o espírito político europeu. Nós compartilhamos nossa vida comum e a coisa pública. Nós assumimos que é nosso compromisso sermos responsáveis pelo futuro de nossas sociedades. Nós não somos sujeitos passivos sobre a dominação de poderes despóticos, sejam sacros ou seculares. E nós não nos prostramos diante de forças históricas implacáveis. Ser um europeu é se apossar da ação histórica e política. Nós somos autores do nosso destino partilhado.

Nós não somos sujeitos passivos

A verdadeira Europa é uma comunidade de nações. Nós temos nossas próprias línguas, tradições e fronteiras. No entanto sempre reconhecemos um parentesco com o outro, mesmo quando estamos em desacordo – ou em guerra. Esta unidade na diversidade parece natural para nós. Isso é notável e precioso, pois não é natural, nem inevitável. A forma política mais comum de unidade na diversidade é o império, que os reis europeus-guerreiros tentaram recriar durante séculos depois da queda do Império Romano. O fascínio da forma imperial permanece, mas a nação-estado prevaleceu, a forma política que une a população com a soberania. A nação-estado tornou-se a marca da civilização europeia.

O estado-nação é a marca da Europa

Uma comunidade nacional se orgulha de governar a si mesmo a sua maneira, muitas vezes se orgulha das suas realizações nacionais nas artes e nas ciências, muitas vezes competindo com outras nações, algumas vezes no campo de batalha. Isso feriu a Europa em muitas ocasiões, algumas gravemente, mas nunca comprometeu a nossa unidade cultural. De fato, ocorreu o contrário. Conforme as nações-estado da Europa se tornaram mais estáveis e distintas, uma identidade europeia comum se tornou mais forte. Após o terrível derramamento de sangue das grandes guerras na primeira metade do século XX, nós emergimos com uma determinação maior ainda para honrar nosso patrimônio comum. Isso atesta a profundidade e o poder da Europa como uma civizalização cosmopolita no seu próprio sentido. Não procuramos a unidade do império imposto e forçado. Ao invés disso, o cosmopolitismo europeu reconhece que o amor patriótico e a lealdade cívica levam a um mundo mais amplo.

Não apoiamos uma unidade imposta e forçada

A verdadeira Europa foi marcada pelo Cristianismo. O império do espírito universal da Igreja trouxe unidade cultural para a Europa, mas o fez sem império político. Isso permitiu que lealdades cívicas florescessem dentro de uma cultura europeia comum. A autonomia do que chamamos sociedade civil tornou-se uma característica da vida europeia. Além disso, o Evangelho cristão não entrega uma lei divina abrangente, e assim a diversidade das leis seculares das nações pode ser afirmada e honrada sem ameaça à nossa unidade européia. Não é por acaso que o declínio da fé cristã na Europa foi acompanhado de esforços renovados para estabelecer a unidade política — um império de dinheiro e regulamentos, cobertos de sentimentos de universalismo pseudo-religioso, que está sendo construído pela União Européia.

O Cristianismo incentivou a unidade cultural

A verdadeira Europa afirma a igual dignidade de cada indivíduo, independentemente do sexo, da categoria ou da raça. Isso também decorre de nossas raízes cristãs. Nossas virtudes gentis são de uma herança inequivocamente cristã: justiça, compaixão, misericórdia, perdão, pacificação, caridade. O cristianismo revolucionou a relação entre homens e mulheres, valorizando o amor e a fidelidade mútua de forma sem precedentes. O vínculo do casamento permite que homens e mulheres floresçam em comunhão. A maioria dos sacrifícios que fazemos são para o bem de nossos cônjuges e filhos. Este espírito de auto-entrega é mais uma contribuição cristã para a Europa que amamos

As raízes cristãs sustentam a Europa

A verdadeira Europa também tirou inspiração da tradição Clássica. Nós nos reconhecemos na literatura da antiga Grécia e Roma. Como europeus, nós nos esforçamos para a magnitude, a coroa das virtudes Clássicas. Às vezes, isso conduziu para violenta competição por supremacia.
Mas, da melhor forma, uma aspiração à excelência inspira os homens e as mulheres da Europa a elaborar obras musicais e artísticas de beleza insuperável e a fazer avanços extraordinários em ciências e tecnologia. As grandes virtudes que os Romanos possuíam, o orgulho na participação cívica e o espírito de investigação filosófica dos gregos nunca foram esquecidos na Europa real. Essas heranças também são nossas.

Raízes clássicas encorajam a excelência

A Europa verdadeira nunca foi perfeita. Os defensores da falsa Europa não estão errados em buscar o desenvolvimento e a reforma, e há muito do que foi realizado em 1945 e 1989, que devemos apreciar e honrar. Nossa vida compartilhada é um projeto em andamento e não uma herança ossificada. Mas o futuro da Europa apoia-se em uma lealdade renovada às nossas melhores tradições, não um universalismo espúrio que exige o esquecimento e o auto-repúdio. A Europa não começou com o Iluminismo. Nossa amada casa não se satisfaz com a União Européia. A verdadeira Europa é, e sempre será, uma comunidade de nações, ao mesmo tempo insular, às vezes ferozmente, e ainda unida por um legado espiritual que juntos debatemos, desenvolvemos, compartilhamos e amamos.

A Europa não é um projeto comum

A verdadeira Europa está em risco. Os objetivos da soberania popular, resistência ao império, cosmopolitismo capaz de amor cívico, o legado Cristão da vida humana e digna, o compromisso vivo com nossa herança clássica – tudo isso está escapando. A medida que os patronos da falsa Europa constroem sua falsa cristandade de direitos humanos universais, nós estamos perdendo nosso lar.

Nós estamos perdendo nosso lar

A falsa Europa se orgulha de um singular compromisso com a liberdade humana. Esta liberdade, entretanto, é apenas de um lado. Ela se vende como uma liberdade de todas as restrições: liberdade sexual, liberdade de auto-expressão, liberdade de “ser quem somos”. A geração de 68 considera estas liberdades como preciosas vitórias sobre um gigantesco e opressivo regime cultural. Eles se veem como grandes libertadores e suas transgressões são aclamadas como objetivos morais nobres, pelos quais o mundo inteiro deve ser grato.

Uma falsa liberdade prevalece

Para as gerações mais novas da Europa, a realidade é menos dourada que o ouro. O hedonismo libertário frequentemente conduz ao tédio e a um profundo senso de falta de propósito. O vínculo do casamento enfraqueceu. No mar da liberdade sexual, os profundos desejos dos jovens de casar e formar famílias são frequentemente frustados. Uma liberdade que frustra o anseio mais profundo de nosso coração se torna uma maldição. Nossas sociedades parecem cair no individualismo, no isolamento e na falta de propósito. Ao invés da liberdade, somos condenados à conformidade vazia da cultura baseada no consumo e na mídia. É nosso dever falar a verdade: a geração de 68 destruiu e não construiu. Eles criaram um vácuo agora preenchido por mídias sociais, turismo barato e pornografia.

Individualismo, isolamento e falta de propósito estão disseminados

Ao mesmo tempo em que ouvimos o orgulho de uma liberdade sem precedentes, a vida europeia se torna mais e mais detalhadamente regulada. Regras – sempre elaboradas por tecnocratas desconhecidos em conluio com os poderosos – regulam nossas relações trabalhistas, nossa qualidade educacional, nosso noticiário e entretenimento. E a Europa agora procura endurecer os regulamentos existentes sobre a liberdade de expressão, uma liberdade européia aborígene – liberdade de consciência manifestada. Os alvos dessas restrições não são obscenidades ou outros assaltos à decência na vida pública. Pelo contrário, a classe politica da Europa deseja restringir o discurso manifestamente político. Os líderes políticos que dão voz a verdades inconvenientes sobre o Islã e a imigração são levados aos juízes. O politicamente correto impõe fortes tabus que consideram contestar o status quo além do permitido. A falsa Europa não encoraja uma cultura da liberdade. Promove uma cultura de homogeneidade orientada para o mercado e a conformidade politicamente forçada.

Nós estamos regulados e dirigidos

A falsa Europa também se orgulha de um compromisso sem precedentes para a igualdade. Ela revindica promover a não discriminação e a inclusão e todas as raças, religiões e identidades. Aqui, um progresso genuíno foi realizado, mas um distanciamento utópico da realidade tomou forma. Ao longo da última geração, a Europa buscou um grande projeto de multiculturalismo. Pedir ou promover a assimilação de recém chegados muçulmanos para as nossas maneiras e costumes, em uma escala menor do que para a nossa religião, passou a ser uma injustiça grosseira. Nos disseram que um compromisso com a igualdade exige que abjuremos de qualquer sugestão de que acreditamos na nossa cultura superior. Paradoxalmente, o empreendimento multicultural da Europa, que nega as raízes cristãs da Europa, negocia o ideal cristão da caridade universal de forma exagerada e insustentável. Exige dos povos europeus um santo grau de auto-abnegação. Devemos afirmar a própria colonização de nossas terras e a extinção de nossa cultura como a grande glória da Europa do século XXI – um ato coletivo de sacrifício próprio por causa de uma nova comunidade global de paz e prosperidade que está nascendo.

Multiculturalismo é impraticável

Há uma grande dose de má fé nesse pensamento. A maioria em nossas classes governantes presume, sem dúvida, a superioridade da cultura européia – que não deve ser afirmada em público porque pode ofender os imigrantes. Dada essa superioridade, eles pensam que a assimilação acontecerá naturalmente e rapidamente. Em um eco irônico do pensamento imperialista antigo, as classes governamentais da Europa presumem que, de alguma forma, pelas leis da natureza ou da história, “eles” se tornarão necessariamente como “nós” – e é inconcebível que o inverso possa ser verdade. Entretanto, o multiculturalismo oficial foi implantado como uma ferramenta terapêutica para gerenciar as infelizes, mas “temporárias” tensões culturais.

A má fé cresce

Aí existe má fé em serviço, do tipo mais sombrio. Ao longo da última geração, um segmento cada vez maior de nossa classe governante decidiu que seu interesse próprio está na globalização acelerada. Eles desejam construir instituições supranacionais que possam controlar sem os inconvenientes da soberania popular. É cada vez mais claro que o “déficit democrático” na União Europeia não é um mero problema técnico a ser remediado por meios técnicos. Em vez disso, esse déficit é um compromisso fundamental, e é zelosamente defendido. Sejam legitimados por supostas necessidades econômicas ou pelo desenvolvimento autônomo de leis internacionais de direitos humanos, os mandarins supra-nacionais das instituições da União Europeia confiscam a vida política da Europa, respondendo a todos os desafios com uma resposta tecnocrática: não há alternativa. Esta é a tirania suave, mas cada vez mais real, que enfrentamos.

A tirania tecnocrática cresce

A arrogância da falsa Europa está se tornando evidente, apesar dos melhores esforços de seus partidários para fortalecer confortáveis ilusões. Acima de tudo, a falsa Europa revela-se mais fraca do que qualquer imaginário. O entretenimento popular e o consumo material não sustentam a vida cívica. Com os ideais mais elevados e desencorajados de expressar o orgulho patriótico pela ideologia multiculturalista, nossas sociedades agora têm dificuldade em convocar a vontade de se defender. Além disso, a confiança cívica e a coesão social não são renovadas por retórica inclusiva ou por um sistema econômico impessoal dominado por gigantescas corporações internacionais. Mais uma vez, devemos ser francos: as sociedades europeias estão se desgastando. Se abrimos os olhos, visualizamos um uso cada vez maior do poder do governo, da engenharia social e do doutrinamento educacional. Não é apenas o terror islâmico que traz soldados fortemente armados em nossas ruas. A polícia anti-motim é agora necessária para reprimir os violentos protestos anti-establishment e até mesmo para controlar as multidões bêbadas de fãs de futebol. O fanatismo de nossas lealdades de futebol é um sinal desesperado da profunda necessidade humana de solidariedade, uma necessidade que, de outra forma, não é cumprida na falsa Europa.

A falsa Europa é frágil e impotente

As classes intelectuais da Europa estão, infelizmente, entre os principais defensores ideológicos dos conceitos da falsa Europa. Sem dúvida, nossas universidades são uma das glórias da civilização européia. Mas, uma vez que elas procuraram transmitir a cada nova geração a sabedoria das eras passadas, hoje a maioria das universidades equipara o pensamento crítico com um simples repúdio do passado. O referencial do espírito europeu tem sido a rigorosa disciplina de honestidade e objetividade intelectual. Mas, ao longo das últimas duas gerações, este nobre ideal foi transformado. O ascetismo que uma vez procurou liberar a mente da tirania da opinião dominante tornou-se um ânimo frequentemente complacente e irreflexivo contra tudo que é nosso. Esta postura de repúdio cultural funciona como uma maneira barata e fácil de ser “crítico”. Ao longo da última geração, foi ensaiada nas salas de conferências, tornando-se uma doutrina, um dogma. E a adesão em professar este credo é tido como o sinal da “iluminação” e das eleições espirituais. Como consequência, nossas universidades são agora agentes ativos da destruição cultural em curso.

Uma cultura de repúdio se formou

Nossas classes governantes estão promovendo os direitos humanos. Eles estão lutando contra as mudanças climáticas. Eles estão arquitetando uma economia de mercado mais globalmente integrada e harmonizando as políticas fiscais. Eles estão monitorando o progresso em direção à igualdade de gênero. Eles estão fazendo tanto por nós! Do que importa os meios utilizados por eles para assumirem seus [respectivos] cargos? Do que importa se os povos europeus estão mais céticos de suas ministrações?

Elites arrogantes ostentam as suas virtudes

Esse crescente ceticismo é totalmente justificado. Hoje, a Europa é dominada por um materialismo sem objetivo que parece incapaz de motivar homens e mulheres a ter filhos e formar famílias. Uma cultura de repúdio priva a próxima geração de um senso de identidade. Alguns de nossos países têm regiões em que os muçulmanos vivem com uma autonomia informal das leis locais, como se fossem colonialistas e não membros de nossas nações. O individualismo nos isola um do outro. A globalização transforma as perspectivas de vida de milhões. Quando desafiadas, nossas classes governantes dizem que estão apenas trabalhando para se ajustar ao inevitável, ajustando-se a necessidades implacáveis. Nenhum outro curso é possível, e é irracional resistir. As coisas não podem ser de outra forma. Os que se opõem dizem que sofrem nostalgia — pelo que merecem uma condenação moral como racistas ou fascistas. À medida que as divisões sociais e a desconfiança cívica se tornam mais evidentes, a vida pública europeia se torna cada vez mais raivosa, e ninguém pode dizer onde isso vai acabar. Não devemos continuar por esse caminho. Precisamos jogar fora a tirania da falsa Europa. Existe uma alternativa.

Existe uma alternativa

O trabalho de renovação começa com auto-conhecimento teológico. As pretensões universalistas e universalizantes da falsa Europa revelam que é um empreendimento religioso falsificado, preenchido por fortes compromissos de credo — e anátemas. Este é o ópio potente que paralisa a Europa como um órgão político. Devemos insistir em que as aspirações religiosas são propriamente a competência da religião, não a política, e muito menos a administração burocrática. Para recuperar nossa ação histórica e política, é imperativo que re-secularizemos a vida pública europeia.

Nós devemos fazer a religião falsificada recuar

Isso exigirá que renunciemos à linguagem mentirosa que evade a responsabilidade e promove a manipulação ideológica. Falar sobre diversidade, inclusão e multiculturalismo é sem sentido. Muitas vezes, essa linguagem é implantada como uma forma de caracterizar nossas falhas como realizações: o desmantelar a solidariedade social é “na realidade” um sinal de boas-vindas, de tolerância e inclusão. Esta é uma linguagem de marketing, uma comunicação destinada a obscurecer a realidade ao invés de iluminá-la. Devemos recuperar o respeito permanente pela realidade. A linguagem é um instrumento delicado, e é degradada quando usada como um cacetete. Devemos ser patronos da decência linguística. O recurso à denúncia é um sinal da decadência do nosso momento presente. Não devemos tolerar intimidação verbal, muito menos ameaças de morte. Precisamos proteger aqueles que falam razoavelmente, mesmo que pensemos que seus pontos de vista estão errados. O futuro da Europa deve ser liberal no melhor sentido, o que significa que se compromete com um debate público robusto livre de todas as ameaças de violência e coerção.

Nós devemos restaurar um verdadeiro liberalismo

Romper o feitiço da Europa falsa e sua cruzada utópica e pseudo-religiosa para um mundo sem fronteiras significa promover um novo tipo de estado e um novo tipo de estadista. Um bom líder político controla a comunidade de um povo em particular. Um bom estadista vê nossa herança europeia compartilhada e nossas tradições nacionais particulares como presentes magníficos e vivificantes, mas também frágeis. Ele não rejeita essa herança, nem pode perder tudo para sonhos utópicos. Esses líderes desejam as honras concedidas a eles pelo povo; eles não desejam a aprovação da “comunidade internacional”, que é de fato o aparelho de relações públicas de uma oligarquia.

Nós precisamos de um estadista responsável

Reconhecendo o caráter particular das nações européias e sua marca cristã, não precisamos ficar perplexos diante das afirmações espúrias dos multiculturalistas. A imigração sem a assimilação é a colonização, e isso deve ser rejeitado. Esperamos com razão que aqueles que migram para nossas terras se incorporarão às nossas nações e adotarão os nossos modos. Esta expectativa precisa ser apoiada por uma política robusta. A linguagem do multiculturalismo foi importada da América. Mas a grande era da imigração da América ocorreu na virada do século XX, um período de crescimento econômico incrivelmente rápido, em um país com praticamente nenhum estado de bem-estar social e com um senso muito forte de identidade nacional a que se esperava que os imigrantes assimilassem. Depois de admitir um grande número de imigrantes, a América fechou suas portas muito bem fechadas por duas gerações. A Europa precisa aprender com essa experiência americana em vez de adotar ideologias americanas contemporâneas. Essa experiência nos diz que o local de trabalho é um poderoso mecanismo de assimilação, que um sistema de bem-estar generoso pode impedir a assimilação e que a liderança política prudente às vezes dita reduções na imigração — até reduções drásticas. Não devemos permitir que uma ideologia multicultural deforme nossos julgamentos políticos sobre a melhor forma de servir o bem comum, o que exige que comunidades nacionais com considerável união e solidariedade vejam seu bem como comum.

Nós devemos renovar a unidade nacional e solidariedade

Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa Ocidental cultivou democracias vitais. Após o colapso do Império Soviético, as nações da Europa Central restauraram sua vitalidade cívica. Estas são as conquistas mais preciosas da Europa. Mas elas serão perdidas se não abordarmos a imigração e a mudança demográfica em nossas nações. Somente os impérios podem ser multiculturais, o que será a União Européia se não conseguirmos renovar a solidariedade e a união cívica como os critérios para avaliar as políticas de imigração e estratégias de assimilação.

Somente impérios são multiculturais

Muitos erroneamente pensam que a Europa está sendo convulsionada apenas por controvérsias sobre a imigração. Na verdade, esta é apenas uma dimensão de um desmembramento social mais geral que deve ser revertida. Devemos recuperar a dignidade de papéis particulares na sociedade. Pais, professores e professores têm o dever de formar aqueles sob seus cuidados. Devemos resistir ao culto da experiência que vem à custa da sabedoria, do tato e da busca de uma vida cultivada. Não pode ocorrer renovação da Europa sem uma determinada rejeição de um igualitarismo exagerado e a redução da sabedoria para o conhecimento técnico. Nós subscrevemos as realizações políticas da era moderna. Cada homem e mulher devem ter um voto igual. Os direitos básicos devem ser protegidos. Mas uma democracia saudável exige hierarquias sociais e culturais que incentivem a busca da excelência e honrem aqueles que servem o bem comum. Precisamos restaurar um sentimento de grandeza espiritual e dar-lhe a devida honra para que nossa civilização possa contrariar o poder crescente da mera riqueza, por um lado, e do entretenimento vulgar, por outro.

Uma hierarquia adequada fomenta o bem estar social

A dignidade humana é mais que o direito de ser deixado em paz, e as doutrinas dos direitos humanos internacionais não esgotam as reivindicações da justiça, muito menos do bem. A Europa precisa renovar um consenso sobre a cultura moral para que a população possa ser orientada para uma vida virtuosa. Não devemos permitir uma falsa visão de liberdade impedir o uso prudente da lei para deter o vício. Devemos perdoar a fraqueza humana, mas a Europa não pode prosperar sem a restauração de uma aspiração comum em direção a uma conduta adequada e à excelência humana. Uma cultura de dignidade decorre da decência e da execução dos deveres de nossas situações na vida. Precisamos renovar o intercâmbio de respeito entre as classes sociais que caracterizam uma sociedade que valoriza as contribuições de todos.

Nós devemos restaurar a cultural moral

Embora reconheçamos os aspectos positivos da economia de livre mercado, devemos resistir às ideologias que buscam totalizar a lógica do mercado. Não podemos permitir que tudo esteja à venda. Os mercados que funcionam bem exigem o estado de direito, e o nosso estado de direito deve visar mais do que a mera eficiência econômica. Os mercados também funcionam melhor quando são aninhados dentro de instituições sociais fortes organizadas por conta própria, princípios não mercantis. O crescimento econômico, embora benéfico, não é o bem mais alto. Os mercados precisam ser orientados para fins sociais. Hoje, o gigantesco corporativo ameaça até mesmo a soberania política. As nações precisam cooperar para dominar a arrogância e a falta de consciência das forças econômicas globais. Afirmamos o uso prudente do poder do governo para sustentar bens sociais não econômicos.

Mercados precisam ser ordenados para fins sociais

Nós acreditamos que a Europa tem uma história e cultura que vale a pena sustentar. No entanto, nossas universidades, muitas vezes, traem nossa herança cultural. Precisamos reformar os currículos educacionais para fomentar a transmissão de nossa cultura comum ao invés de doutrinar os jovens em uma cultura de repúdio. Professores e mentores em todos os níveis têm um dever de memória. Eles devem se orgulhar do seu papel como uma ponte entre as gerações passadas e as gerações vindouras. Devemos também renovar a alta cultura da Europa estabelecendo o sublime e o belo como nosso padrão comum e rejeitando a degradação das artes em uma espécie de propaganda política. Isso exigirá o cultivo de uma nova geração de mecenas. Corporações e burocracias mostraram-se pobres apoiadores das artes.

A educação precisa ser reformada

O casamento é um fundamento da sociedade civil e a base para harmonia entre homens e mulheres. Ele é o elo íntimo organizado entre sustentar uma família e criar filhos. Nós afirmamos que nossos papéis mais fundamentais na sociedade e como seres humanos são como pais e mães. Casamento e filhos são parte integrante de qualquer visão do florescimento humano. As crianças exigem sacrifício daqueles que os trazem para o mundo. Esse sacrifício é nobre e deve ser honrado. Nós subscrevemos políticas sociais prudentes para incentivar e fortalecer o casamento, a maternidade e a educação infantil. Uma sociedade que não acolhe crianças não tem futuro.

Casamento e família são essenciais

Há uma grande ansiedade na Europa hoje, devido ao surgimento do chamado “populismo” — embora o significado do termo pareça nunca ser definido e é usado principalmente como insulto. Temos nossas reservas. A Europa precisa recorrer à profunda sabedoria de suas tradições, em vez de se basear em slogans simplistas e em apelos emocionais divisivos. Ainda assim, reconhecemos que muito neste novo fenômeno político pode representar uma rebelião saudável contra a tirania da falsa Europa, que rotula como “antidemocrática” qualquer ameaça ao seu monopólio da legitimidade moral. O chamado “populismo” desafia a ditadura do status quo, o “fanatismo do centro”, e com razão. É um sinal de que, mesmo em meio à nossa cultura política degradada e empobrecida, a ação histórica dos povos europeus pode renascer.

O Populismo deve ser impedido

Nós rejeitamos como falsa a afirmação que não há alternativa responsável para o artificial e desumano mercado unificado, a burocracia transnacional e volúvel entretenimento. Pão e circo não são suficientes. A alternativa responsável é a verdadeira Europa.

Nosso futuro é a Europa verdadeira

Neste momento, nós convocamos todos os europeus a se juntar a nós para rejeitar a fantasia utópica de um mundo multicultural sem fronteiras. Nós amamos nossas pátrias com razão e nós procuramos entregar para as nossas crianças todas as coisas nobres que nós mesmo recebemos como nosso patrimônio. Como europeus, nós também compartilhamos uma herança comum e ela nos roga a viver juntos em paz como uma Europa de nações. Vamos renovar as soberanias nacionais e recuperar a dignidade de uma responsabilidade política em conjunto para o futuro da Europa.

Nós devemos assumir a responsabilidade.

[*] Phillipe Bénéton, Rémi Brague, Chantal Delsol, Roman Joch, Lánczi András, Ryszard Legutko, Roger Scruton, Robert Spaemann, Bart Jan Spruyt & Matthias Storme. “The Paris statement – A Europe we can believe in”. TPOlitiek, 7 de Outubro de 2017.

Tradução: Oscar Mundstock