Como Reverter a Decadência de Londres?


Este ARTIGO foi publicado originalmente neste SITE

Por Jonathan Sacks [*]

Era a mesma cidade, mas poderia ter sido um planeta diferente. No final de abril, os olhos do mundo estavam postos em Londres porque um príncipe valente e uma princesa radiante, William e Kate, cavalgavam numa carruagem puxada por cavalos pelas ruas seguidos por uma multidão de fãs compartilhando um alegre clima festivo. Menos de quatro meses depois, o mundo estava olhando para Londres novamente, porque jovens encapuzados provocaram motins nas ruas principais, destruindo janelas, saqueando lojas, incendiando carros, atacando os pedestres e jogando pedras na polícia.

Parecia uma cena do Cairo, Tunísia ou Trípoli no início do ano. Contudo, isso não foi uma insurreição política. As pessoas estavam entrando em lojas e fugindo com roupas, sapatos, aparelhos eletrônicos e televisões de tela plana. Foi, como alguém denominou posteriormente, um compra violenta, um rebuliço consumerista, uma explosão de ilegalidades possibilitada pelos telefones móveis na medida em que as gangues descobriam que, por mensagens de texto, poderiam levar multidões às ruas onde, por algum tempo, tornar-se-iam impossíveis de sofrer qualquer controle.

Deixe-nos ser claros. A quantidade envolvida era relativamente pequena. As pessoas ordeiras superaram em grande parte os infratores da lei. Pessoas intervieram para resgatar as vítimas dos ataques. Multidões apareceram todas as manhãs para limpar os destroços da noite anterior. A Grã-Bretanha continua sendo uma sociedade decente, boa e misericordiosa.

Entretanto o prejuízo foi real. As empresas foram destruídas. As pessoas perderam sua casa. Um homem de 68 anos, atacado por uma multidão enquanto tentava apagar o fogo, morreu. Três jovens em Birmingham foram mortos em um ataque de atropelamento e fuga. Enquanto isso durou, foi muito assustador.

Os políticos perceberam rapidamente que não era um incidente pequeno. Um a um, cancelaram suas férias, voltaram para casa e reuniram novamente o Parlamento. Houve discursos inflamados, especialmente do primeiro-ministro David Cameron, que disse que a Grã-Bretanha havia sofrido um colapso moral.

O tribunal sentou-se sem interrupção, trabalhando o tempo todo para tentar prender quase 3.000 pessoas. Uma série de medidas foi anunciada: poderes policiais mais fortes, penas mais duras, apoio a famílias problemáticas, uma nova forma de serviço nacional. Falou-se de “Grã-Bretanha dividida”. A nação viu-se no espelho, e não gostou do que viu.

Pegou todos de surpresa. Não deveria ter pegado. A Grã-Bretanha é o último país a pagar o preço pelo que aconteceu há meio século em uma das transformações mais radicais da história do Ocidente. Em quase todas as sociedades ocidentais na década de 1960, houve uma revolução moral, um abandono de toda a sua ética tradicional de autocontrole. Tudo de que você precisa, cantaram os Beatles, é amor. O código moral judaico-cristão foi descartado. Em seu lugar veio: o que quer que funcione para você. Os Dez Mandamentos foram reescritos como As Dez Sugestões Criativas. Ou, como Allan Bloom colocou em The Closing of the American Mind [O Fechamento da Mente Americana]: “Eu sou o Senhor, seu Deus: relaxe!”

Você não precisa ser um sentimentalista vitoriano para perceber que algo está indo de mal a pior desde então. Na Grã-Bretanha, atualmente, mais de 40% das crianças nascem fora do casamento. A Grã-Bretanha tem a maior porcentagem de famílias monoparentais e mães adolescentes no mundo. Isso levou a novas formas de pobreza infantil incapazes de ser sanadas pelas elevadas despesas governamentais. Em 2007, um relatório da UNICEF descobriu que as crianças da Grã-Bretanha são as mais infelizes do mundo. Os motins de 2011 são um resultado [disso]. Contudo há outros.

Comunidades inteiras estão crescendo sem pais ou modelos masculinos. Criar uma família nas melhores circunstâncias não é fácil. Tentar fazê-lo colocando toda a responsabilidade sobre as mulheres — 91% das famílias monoparentais na Grã-Bretanha são chefiadas pela mãe — é praticamente um absurdo, e moralmente indefensável. No momento em que os meninos estão na adolescência, eles são fisicamente mais fortes do que a mãe. Sem pais, eles são socializados em gangues. Ninguém pode controlá-los: nem pais, professores ou mesmo a polícia local. Existem áreas nas principais cidades da Grã-Bretanha que foram “zonas interditas” ou “zonas intocáveis” por anos. O crime é desenfreado, assim como as drogas. É uma receita para a violência e o desespero.

Esse é o problema. No começo parecia que os motins eram quase aleatórios sem base na classe ou na raça. À medida que os culpados chegaram ao tribunal, surgiu uma imagem diferente. 60% dos acusados tinham antecedentes criminais registrados. 25% pertenciam a gangues.

Parte do choque é que 40% eram anteriormente obedientes à lei. Entretanto, o que é claro é que esta foi a ruptura de uma barragem que tem sido construída há anos a fim de se evitar uma crise de enormes proporções [N.T.: o autor faz referência à crise do rublo (moeda russa) em 2014]. O colapso das famílias e das comunidades deixa à sua volta jovens não socializados, privados de cuidados parentais, que, em média — e, sim, há exceções, — são piores do que seus colegas na escola, mais suscetíveis ao abuso de drogas e álcool, menos propensos a encontrar emprego estável e mais propensos a ir para a prisão.

A verdade é que não é culpa deles. Eles são vítimas do tsunami de pensamento ilusório que se arrastou pelo Ocidente dizendo que você pode fazer sexo sem a responsabilidade do casamento, filhos sem a responsabilidade da paternidade, ordem social sem a responsabilidade de cidadania, liberdade sem a responsabilidade da moralidade e autoestima sem a responsabilidade do trabalho e da atividade remunerada.

O que aconteceu moralmente no Ocidente é o que aconteceu financeiramente também. As pessoas boas e de alguma forma sensatas foram convencidas de que você poderia gastar mais do que ganha, contrair dívidas em níveis sem precedentes e consumir os recursos do mundo sem pensar em quem, e quando, pagará a conta. Tem sido a cultura do almoço grátis em um mundo onde não há almoços grátis.

Nós gastamos nosso capital moral com o mesmo descaso imprudente com o qual gastamos nosso capital financeiro. Freud estava certo. A pré-condição da civilização é a capacidade de adiar a gratificação do instinto. E mesmo Freud, que não gostou da religião e a chamou de “neurose obsessiva” da humanidade, percebeu que era a ética judaico-cristã que capacitava as pessoas a controlar seus apetites e a praticar a ética necessária de autocontrole.

Existem grandes partes da Grã-Bretanha, da Europa, até mesmo dos Estados Unidos, onde a religião é uma coisa do passado e não há voz contrária à cultura do compre, gaste, use, exiba, porque isso vale a pena. A mensagem é que a moralidade é coisa ultrapassada, a consciência é coisa de covardes, e o único comando primordial é “você não será descoberto”. Isso já aconteceu antes? E há um caminho de volta? A resposta a ambas as perguntas é afirmativa. Na década de 1820, na Grã-Bretanha e na América, ocorreu um fenômeno semelhante. As pessoas estavam mudando das aldeias para as cidades. As famílias foram prejudicadas. Os jovens foram separados de seus pais e não estavam mais sob seu controle. O consumo de álcool aumentou drasticamente, assim como a violência. Na década de 1820, não era seguro andar pelas ruas de Londres por causa dos trombadinhas ao longo do dia e dos “malfeitores indisciplinados” à noite.

O que aconteceu nos próximos trinta anos foi uma grande mudança na opinião pública. Houve um crescimento sem precedentes de instituições de caridade, associações mútuas, institutos de trabalho, grupos de temperança, associações de igreja e sinagogas, escolas dominicais, edifícios YMCA e campanhas éticas de todas as formas e dimensões: combate à escravidão, ao trabalho infantil ou a condições de trabalho desumanas. O traço comum [a todas as atividades] foi a ênfase na construção de um caráter moral, de autodisciplina, força de vontade e responsabilidade pessoal. E funcionou. Dentro de uma única geração, as taxas de criminalidade caíram e a ordem social foi restaurada. O que foi alcançado foi nada menos do que a remoralização da sociedade — grandemente impulsionada pela religião.

Foi isso que o jovem aristocrata francês Alexis de Tocqueville verificou ao visitar os Estados Unidos em 1831. Aquela realidade o deixou assombrado. Ele tinha visto o que é necessário para que a liberdade democrática funcione, e descreveu isso em frases que não perderam seu poder desde então. Ele a chamou de a “arte da associação” que forma os “hábitos do coração” que constituem o “aprendizado da liberdade”.

Tocqueville esperava ver, na terra que havia decretado a separação constitucional da Igreja e do Estado, uma sociedade secular. Para seu espanto, encontrou algo completamente diferente: um Estado secular, com certeza, mas também uma sociedade em que a religião era, segundo ele, a primeira de suas instituições políticas (agora diremos “civis”). Ela [a religião] fez três coisas que ele considerava essenciais: fortaleceu a família, ensinou a moralidade e incentivou a cidadania ativa.

180 anos depois, o Tocqueville do nosso tempo, o sociólogo de Harvard, Robert Putnam, fez a mesma descoberta. Putnam é famoso pelo diagnóstico da quebra de capital social que ele chamou de “boliche solitário”. Mais pessoas estavam indo ao boliche, mas poucas estavam integrados em equipes. Era um símbolo da perda de comunidade em uma época de individualismo desenfreado. Essa foi a má notícia.

Uma década depois, no final de 2010, ele publicou as boas novas. O capital social, escreveu na American Grace, não desapareceu. Está bem vivo e pode ser encontrado em igrejas, sinagogas e outros locais de culto. Pessoas religiosas, ele descobriu, formam melhores vizinhos e cidadãos. Elas são mais propensas a doar para caridade, a fazer trabalho voluntário, a auxiliar um sem-teto, a doar sangue, a passar algum tempo com alguém com depressão, a oferecer um assento a um estranho, a ajudar alguém a encontrar um emprego e a participar da vida cívica local. A afiliação a uma comunidade religiosa é o melhor indicador de generosidade e empatia: melhor do que educação, idade, renda, gênero ou raça.

Muito pode e deve ser feito pelos governos, mas eles não podem mudar vidas. Os governos não podem fazer casamentos ou transformar indivíduos irresponsáveis em cidadãos responsáveis. Isso precisa de outro tipo de agente de mudança. Alexis de Tocqueville percebeu isso, e Robert Putnam está dizendo isso agora. Precisamos de religião: não como doutrina, mas como um modelo de comportamento, um tutor de moralidade, um seminário de autocontrole e busca do bem comum.

Uma das nossas melhores exportações britânicas para a América, o historiador de Harvard Niall Ferguson, tem uma passagem fascinante em seu livro Civilization, no qual pergunta se o Ocidente pode manter sua supremacia no cenário mundial ou se é uma civilização em declínio.

Ele cita um membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais, encarregado de descobrir o que deu ao Ocidente seu domínio. Ele disse: no início, pensávamos que eram suas armas. Então pensamos que era seu sistema político, a democracia. Então dissemos que era seu sistema econômico, o capitalismo. Entretanto, nos últimos vinte anos, soubemos que era sua religião.

Foi a herança judaico-cristã que deu ao Ocidente a busca incansável por um amanhã que seria melhor do que hoje. Os chineses aprenderam a lição. Cinquenta anos após o presidente Mao ter declarado que a China é uma zona livre de religião, há, agora, mais cristãos chineses do que membros do Partido Comunista.

A China aprendeu a lição. A questão é: nos aprenderemos?

[*] Jonathan Sacks. “Reversing the Decay of London Undone”. Rabbi Sacks, 20 de Agosto de 2011.

Tradução: Cássia H.

Revisão: Gleice Queiroz